O cego e a guitarra

O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.

 

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

 

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.

 

Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

 

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

 

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.